Uma viagem ao submundo e uma história de amor

Reportagem, romance, denúncia: livro traz à tona bastidores da segurança pública nos presídios do Rio em relato de empresário ex-dependente químico

Quando a Michelle Strzoda buscou em 2015 um jornalista que estivesse disposto a encarar “personagens fortes”, ela não estava exagerando. Quanto mais eu avançava nas entrevistas com o Pedro Madsen Andrade – foram mais de 40 horas de depoimentos gravados –, mais era preciso segurar o coração e o estômago para escrever a matriz do se tornaria o livro Quando a liberdade vira pó.

Neste livro, a história do jovem de classe média, usuário de drogas, é o fio condutor de um relato que suscita discussões sobre as mazelas do sistema carcerário do estado do Rio de Janeiro. Sobretudo do Complexo de Gericinó – emaranhado de concreto, grades e violência. Lá estão desde simples assaltantes até os grandes chefões do tráfico e, mais recentemente, figuras de alto escalão investigadas por esquemas de corrupção, como o ex-governador Sérgio Cabral e – até semanas atrás – o megaempresário Eike Batista.

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Aos 29 anos, em junho de 2013, Pedro iniciou uma jornada de 498 dias naquele submundo, onde as “leis” em vigor são as de facções criminosas e a presença do estado se materializa em tortura e extorsão praticadas por agentes penitenciários. Logo ao chegar, teve o primeiro choque: guardas perceberam que ele não pertencia ao mesmo universo que seus “colegas” de cadeia e tentaram arrancar dinheiro da família.

Não houve um só dia em que Pedro não tenha presenciado espancamentos – chegou, inclusive, a prová-los na própria pele. E mais: em celas imundas e caindo aos pedaços, superlotadas de homens em total ociosidade, acusados de estupro, assassinato e outros crimes, o jovem em tratamento contra a dependência química viu circularem livremente cocaína, maconha e celulares.

Coração acorrentado

O livro é, também, uma história de amor.

Nesse ambiente hostil e miserável, Pedro encontrou rumos para a própria vida, antes entregue às drogas e à paixão turbulenta por uma mulher.

Atrás das grades, o ateu convicto – criado por uma família cristã praticante – passou a conversar com Deus, em busca de significado para a experiência que enfrentava e a dar as mãos para ajudar ao próximo.

Ao sair de Gericinó em outubro de 2014, porém, Pedro não encontrou a tão sonhada liberdade. Precisou se reacostumar com a vida fora das celas e, sobretudo, a fortalecer seu coração, para poder amar novamente.

O que aconteceu antes, nas entranhas das cadeias cariocas e o que Pedro encontrou depois, você, leitor, vai descobrir ao ler o Quando a liberdade vira pó. Depois de décadas em redações, esta é minha primeira experiência em livro-reportagem.

Gostaria de convidar a todos para o lançamento do livro, a ser realizado na Livraria da Travessa  sexta-feira, 19 de maio, no Shopping Leblon – onde faremos um debate antes dos autógrafos –, e terça-feira, 30 de maio, no BarraShopping.

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Fernanda Portugal foi repórter e editora de O Dia, nas editorias de Cidade, Saúde, Internacional e Meio Ambiente. Com reportagens ligadas a segurança pública e direitos humanos, ganhou três vezes o prêmio SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa).